terça-feira, 16 de março de 2010

O SAGRADO


1. Uma breve compreensão do Sagrado

Segundo Marilena Chauí[1], o sagrado seria uma experiência da presença de uma potência ou de uma força sobrenatural que habita algum ser – planta, animal, humano, coisas, ventos, água, fogo. Potência esta que seria um poder que pertence propriamente ao ser, podendo este ser possuir e perder, não ter e adquirir. O sagrado opera o encantamento do mundo, habitado por forças maravilhosas e poderes admiráveis. Para Marilena Chauí, o sagrado seria a própria divindade e a tentativa humana de contato direto com essa realidade inatingível, seria a religião. O contato com o divino, ou seja, a experiência com o sagrado é capaz de despertar nos seres humanos sentimentos que os levariam do amor ao ódio. No judaísmo e no cristianismo experiência sacra ocorre por meio da revelação, na qual Deus revela ao homem sua “emunah”, que em hebraico quer dizer vontade, podendo o ato revelatório acontecer pelas mais diversas experiências, sonhos e visões, mas o fundamento é ouvir o que a divindade lhes diz, porque dela provém o sentido primeiro e último de todas as coisas e do destino humano.
Nas palavras de Mircea Eliade[2] em seu livro O Sagrado e o Profano, a primeira definição, ou talvez, a única coisa que de fato que possa ser afirmada a respeito do sagrado, é que ele é o oposto do profano, sendo que para o fenômeno religioso o sagrado é a vida religiosa e o profano a vida secular e essa oposição entre sagrado e profano traduz-se, muitas vezes, como oposição entre o real e o irreal. Mircea Eliade considera que o sagrado seria o instrumento de ligação do homem com o divino, assim qualquer objeto ou instituição poderá ter um caráter sagrado tendo em vista que, as manifestações do divino através de sua força e poder, as chamadas hierofanias, revelam ao homem a divindade de forma inteiramente diferente das realidades “naturais”.
O sagrado sempre encanta o mundo, e esse encantamento pode gerar medo, espanto, mas ao mesmo tempo curiosidade e admiração. É nesse processo que surge o sentimento religioso e a experiência da religião.
Rudolf Otto na sua obra “O Sagrado” [3], analisa as modalidades da experiência religiosa esclarecendo o conteúdo e o caráter específico dessa experiência. Assim diante do sagrado o ser humano descobre um sentimento de pavor, seria o mysterium tremendum, que exala uma superioridade esmagadora de poder do divino, além disso, quem se chega ao sagrado encontra o temor religioso gerado pelo fascínio, o mysterium fascinans, que atrai e impulsiona em direção ao divino. Para Rudolf Otto é a experiência com o sagrado, ultrapassando sempre os limites do natural, que leva o ser humano ao encontro da perfeita plenitude do ser. Para o ministro evangélico enveredar-se por este sentimento fascinante e misterioso é compreender-se na medida em que a divindade se revela.

“... sendo um arrepio místico, desencadeando como efeito colateral na autopercepção o sentimento de criatura a sensação da própria nulidade, de submergir diante do formidável e arrepiante objetivamente experimentado no receio.” (Otto, 2007, p49)

Para compreender o caráter do sagrado e os meios pelos quais a revelação divina chega até o homem, é necessário entender a experiência religiosa e o seu significado para o ser humano, pois é envolto nesta manifestação cultural que ele consegue transpor as barreiras do próprio ser, passando a compreender e entender a sua jornada em direção ao divino.





[1] CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora. Ática, 2000.
[2] ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano / Mircea Eliade; [tradução Rogério Fernandes]. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
[3] OTTO, Rudolf. O Sagrado: os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional. São Leopoldo: Sinodal/EST; Petrópolis: Vozes, 2007.



Almir Lima Andrade

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